segunda-feira, 27 de março de 2017






DEIXA A VIDA ME LEVAR

Sandra CGH




Do ponto de vida biológico é a vida que me leva mesmo. Minhas células, impulsos nervosos movem e ditam o funcionamento de tudo, o sangue bombeado pelo coração, minha visão através da retina e do nervo óptico. Respiro. Meu diafragma se contrai profundamente necessário, pulmões sopram me o ar. Inspiro. Pés que me sustentam e me levam onde quero e preciso etc.

Muitas e muitas necessidades corporais, fisiológicas, biológicas, celulares etc. Já deu pra perceber que não sou bióloga. Respeito e tenho a vida. Gerei-a também. É um sensação única a gestação.

Trouxe um ser ao mundo, aliás, dois.

Mas como enxergar a vida somente pela ciência biológica? Pra alguém de humanas, impossível. 

Além de bilhões de células, somos compostos de nossos pensamentos, ideias, sonhos, sentimentos... E aí, começamos a complicar... 

Tudo aquilo que envolve a individualidade do outro, seu mundo, compreensão, sonhos, aspirações, medos requer muito cuidado porque é um universo particular.

Esse universo particular é construído através não só de suas células, seu DNA, mas também por seu meio social. Neste meio, composto por todas as etapas de sua vida em sociedade, lugares, acontecimentos, situações e pessoas, dará a sua formação social e cidadã.

É em sua infância, sua família, seu meio social (rua, bairro, escola, comunidade) que lhe trazem e formam suas primeiras noções de viver em sociedade e de mundo.

Vivendo num ambiente apático, frívolo e fútil certamente lhe formará uma mentalidade desejosa somente de deixar realmente a vida lhe levar e de preferência de acordo com a moda do momento, sua necessidade de exibição e ser aceito em um grupo seja do bairro, da escola ou de outro determinado lugar.

Crescendo num ambiente voltado à diversidade de opiniões, ao saber ouvir, falar e se posicionar, tendo contato com diversos tipos de arte, com a formação necessária e interativa de diferentes saberes o possibilitará ter uma visão de mundo e toda a sua complexidade.

Como isso é possível na sociedade brasileira?

Vivemos num país onde livros não são acessíveis para a maioria da população. Onde políticas públicas de leitura não são estimuladas por prefeitos, muitas vezes maquiando-as. 

Funcionários de bibliotecas escolares  muitas vezes não têm a devida formação e competência necessária para trabalhar ali. Muitos gestores de escolas enxergam a biblioteca como somente um depósito de livros. Ainda ridicularizam, dificultam o trabalho de bibliotecários que possuem competência atuando como formador de leitores e suporte de outras disciplinas.

Um país onde o sonho de um "point" de uma cidade pequena é uma lanchonete de uma franquia norte americana e não um cinema, um teatro, uma pista de atletismo etc.

Vivemos num país onde não há uma política pública televisiva. Não há o menor cuidado em medir a dimensão social de certas programações esdrúxulas de nossa TV, nem o impacto na educação de crianças e jovens com programações tão sensacionalistas, violentas e fúteis. 

O entretenimento banalizou a cultura. É mais lucrativo e fácil fazer uma pessoa rir e seguir uma novela, do que explicar uma realidade, o mundo do trabalho, da produção, do mercado etc.

A TV poderia fazer uma programação que alie as duas coisas, mas consciência educativa e social, não faz parte da grande mídia brasileira.

A programação de formação de opinião, investigativa e cultural fica restrita a horários muito tardios e/ou madrugada adentro.

O trabalhador não aguenta acompanhar, desiste. Responsabilidades do trabalho e o sustento da família  pesam muito mais do que o lazer. Desiste deste, por causa do horário e seus compromissos.

Resta-lhe os jornais sensacionalistas, parciais e rasos.  Resta-lhe as novelas ocupando quase toda a grade da programação noturna. Resta-lhe os campeonatos de futebol, alterando regras, horários de transmissão, que a TV dita em seus contratos.

Não há política pública para leitores aplicada à realidade brasileira. Há o discurso, o papel assinado, o "pra inglês ver", a instalação, o prédio da biblioteca. Mas não há a visão, a prática de um planejamento público e escolar voltado à formação de leitores, manutenção e aprimoramento da leitura.

Assim, sem uma leitura diária e de qualidade, o brasileiro é condicionado a deixar a novela, o futebol, a fofoca, o último escândalo do BBB, a produção visual de uma famosa, piadas, memes, escândalos sensacionalistas... guiá-lo e despistá-lo sobre questionamentos e informações de suas reais necessidades e anseios.

Fonte da imagem: http://www.fapcom.edu.br/blog/cultura/dicas-livros-deseja-televisao.html

sábado, 11 de abril de 2015

MÃOS TALENTOSAS I - A discriminação social da cultura




MÃOS  TALENTOSAS  I





É o típico filme que não cansamos de ver, volta e meio estamos lá com saudade de novo. Há sempre  um novo trecho que observamos algo que não tínhamos ainda notado.

A história de Ben Carson, o maior neurocirurgião pediatra do mundo. Uma história e tanto. E me lembro quando o assisti, nossa! É a história real de um grande médico, salvou tantas vidas, inventou novos procedimentos médicos, novas cirurgias (delicadíssimas), deu esperança a inúmeros pais e mães para com seus filhos. 

O histórico social de Ben  era de muitas dificuldades financeiras, sociais, emocionais etc. Filho de uma empregada doméstica, analfabeta. O pai era traficante. Ben não conviveu com ele porque a mãe quando soube da bigamia e da verdadeira "profissão" do "marido", separou dele com duas crianças pequenas para cuidar. 

Ben tinha um histórico de vida de estudar e ficava em casa vendo TV com irmão até a mãe chegar do emprego. Tinha auto-estima baixa, achava que não conseguia aprender. Uma parte foi resolvida quando a mãe descobriu que ele tinha era problema de vista, por isto não conseguia fazer as tarefas. 

A mãe, tão sábia mulher, que mesmo analfabeta, queria um futuro para os filhos e sabia que ele estava nos estudos dos filhos. Ela os incentivou te todas as maneiras.

Observando os hábitos de um patrão e sua biblioteca. Tirou o tempo que os filhos ficavam somente vendo televisão, incentivou e cobrou a leitura de diversos livros deles. No começo estranharam mas se adaptaram. A nova rotina era ir à biblioteca, ler livros e apresentar os resumos para a mãe. 

As visitas à biblioteca, a leitura de diversos livros abriram um mundo de possibilidades para Ben. De um garoto que achava graça de programas de piadas bobas e com viés racista na TV, Ben e seu irmão acompanhavam um programa de disputa de conhecimento, uma espécie de Passa ou Repassa daquele tempo. Com o passar do tempo e com sua nova rotina de leitura e estudo, os irmãos começaram a ter conhecimento sobre os assuntos das perguntas do programa e respondiam corretamente antes dos participantes da TV.

E é acompanhando este programa que Ben conhece a música clássica e se apaixona. A música o acompanhou em toda a sua vida até mesmo nas cirurgias.

Os conhecimentos adquiridos com diversas leituras fizeram Ben ter conhecimento e curiosidade em diversas áreas. E uma vez indo para a escola tinha várias pedras de um material diferente, ele coleta pedras e procura na biblioteca um livro sobre rochas e estuda-as. Algum tempo depois um jovem professor de geografia, com a mesma pedra na mão, pergunta à turma se sabiam o que era isso e ele brilhantemente responde:

__ Uma obsidiena.

O professsor diz:

__ Obsidiana. Está certo. 

A sala reage de boca aberta, todos admirados com o extraordinário conhecimento de Ben. O professor pede para que ele esperasse depois da aula. Ben ficou com receio, achou  que teria represálias, o professor poderia não ter gostado de sua atitude e interpretado de outra forma. Mas o que se seguiu foi espetacular. 

__ Sabe como se formou?

Ben responde:

__ Bem, ela foi formada depois de uma erupção vulcânica, pelo resfriamento da lava quando chega à água. O vulcão explode e a lava escorre fervendo. Quando chega à água os elementos se fundem e como a água é fria, o ar é expelido, a superfície vitrifica e a lava endurece. Aí faz a obsidiena, quer dizer obsidiana.

O professor diz que quer vê-lo depois da aula.

Ben chega receoso ao professor que pergunta:
__ O que houve?

Bem pede desculpas.

O professor responde:

__ Desculpar o quê? Foi você que abriu a porta. Venha.

O professor o convida para observar o microscópio e  diz:

__Sabe o que é isso? Isso é outro Benjamim. Você acaba de entrar em outro mundo...

Pergunto e se esse professor se sentisse intimidado ou desafiado por Ben?

Um aluno que soube algo que o professor perguntou e que nem estava no livro didático. Algo que partiu da curiosidade dele.

O que este professor tinha era sabedoria e era amante do saber. E por amar o saber não se importa quem tem o saber ou o acesso a ele. Não importou para ele se Ben era negro, pobre, o importante era que ele tinha um aluno que assim como ele gostava de ciências, era curioso, pesquisador. O amor que este professor tinha era de ver o conhecimento ser propagado, de chegar a outras pessoas. 

Quando diz "você abriu a porta", ele diz você abriu a porta do conhecimento. Prepare-se para a maior aventura que o conhecimento vai trazer na sua vida que é o crescimento pessoal, do raciocínio, da razão, do saber, do conhecimento, da sabedoria.

Vemos muitas atitudes assim. Aconteceu comigo também. Não desafiei a professora de história, só fiz um comentário mínimo sobre música clássica. E ela naquele tom de "quem é você?" me perguntou, numa sala lotada com 50 alunas.

___ O que é música clássica pra você?

Fiquei calada. Deu um nó na garganta.

E ela calmamente, com toda a sua "superioridade" falou:

___ Música clássica é uma música que tem seu início e ela tem as notas e depois acaba nas mesmas notas que começou.

Aquele olhar de "quem é você", aquela postura me diziam: "Eu sou muito bem nascida, estudei piano, fiz direito, faço parte do coral, frequento a alta sociedade cultural e você, o que você é?

Paralisara ali o pouco do meu entusiasmo com a música clássica,  paixão que só fui retomar 22 anos depois, já amadurecida com auto-estima e confiança estabelecidas.

O que penso sobre esse episódio hoje é que eu era uma branca, pobre, adotada por uma família de negros, que lia e estudava muito. Gostava de temas que geralmente adolescentes não gostam como: arte, política, economia, sociedade, culturas diversas etc. E dentro disso estava a música, ouvindo outros gêneros também. Não entendia porque os três tenores me fascinavam tanto aos 17 anos. Por quê eu não poderia gostar e ter curiosidade sobre música clássica? A música tem divisão social? Pobres têm que gostar disso e ricos daquilo?

Me senti tão diminuída que não que não tive mais incentivo. Numa época onde se tinha que comprar LPs e o que eu conseguia ouvir era em filmes e especiais da TV.
Mas eu entendo hoje que era o que eu sempre escrevo: o capital cultural. Música clássica é ainda um estilo que ainda predomina nas classes mais abastadas. O pobre como não tem acesso em seu meio fica "desfamiliarizado" com esse estilo. 

O pobre que por alguma razão goste ou tem acesso a esse estilo musical é discriminado pelos ricos e classe média alta. Ainda pensam que a sociedade tem que estar estratificada socialmente e culturalmente com condições econômicas (renda, poder de compra etc), sociais (casa, alimentação, cuidados médicos, escola) e culturais (a própria fala, lazer, esportes, culinária, música, leitura, a dança etc) separados entre ricos e pobres. Há no íntimo da sociedade o conceito adquirido e passado de geração em geração que certos hábitos são de pobres e outros são de ricos. 

Quando um rico vê um pobre lendo numa biblioteca, no consultório médico, já acha estranho. Como se o hábito de comprar livros e ler fosse uma exclusividade das classes mais abastadas. Quando vê um pobre ouvindo rock inglês estranham muito porque, na sua concepção, pobre só ouve sertanejo e funk. Quando existe um pobre que houve música clássica é visto como extravagante, excêntrico etc. E em inúmeras outras situações te lançam olhares de como isso é possível e seus pensamentos vageiam na verdade para essa divisão cultural social entre pobres e ricos. 

Há aqueles que não se conformam com a ascensão social dos pobres e sobre a égide do preconceito e da discriminação social  magoam, insultam e ofendem as pessoas pobres que manifestam gostos artísticos comuns à classe média alta ou rica. Posso dizer, que foi por tudo isso, que fui constrangida. 

A estratificação social no Brasil ao longo dos séculos foi tanta, o acesso à educação sempre foi negado como direito de todos (somente após a Constituição de 1988) é que passou a ser um direito de todos. Que o analfabetismo passou a ser superado. Que se fixou como cultura nas pessoas que hábitos de ler, ouvir músicas clássicas, tocar piano, estudar balé fossem hábitos e condições somente de ricos.

É claro que as baixas condições econômicas não favorecem o piano, o balé por exemplo. Piano, balé e suas aulas tem que pagar. Quem que tem dinheiro para pagar as aulas de piano e balé? Os ricos e a classe média.

Atualmente, com a mobilidade social que vem ocorrendo no Brasil, vejo estas características sendo emancipadas. Estou vendo meninas oriundas de famílias pobres (que se tornaram classe média) frequentarem o balé. Mas ainda falta popularizar o piano, popularizar a música clássica.

Música é pra emocionar, pra tocar o fundo do coração e da alma. Música não pode ser instrumento de diferenças sociais e discriminação. Música tem que ser conhecida, acessível, sentida e experimentada, para que cada gole nos sove nossa sensibilidade, a ponto de perceber que o ouvido, assim como o paladar, é mutável, adaptável aos gostos e sons. Ninguém nasce não gostando ou gostando de tal gênero musical, o que há é a convivência com tais ritmos e sons. Ao propiciar um encontro de um gênero musical, numa abordagem mais humanista e sociológica, estão abertas as portas para a democratização musical.

Sandra Cristina Gomes - Professora de História e Geografia. Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Juiz de Fora.




domingo, 15 de março de 2015

O MARIDO  DE  ERIN  GRUWELL


Muitas de nós suspiramos, ao ver Patrick Dempsey encarnando o marido Scott Casey, bonitão, educado e fino, de Erin Gruwell.

A definição atual para um relacionamento que acabe numa separação é a frase: Foi bom enquanto durou.

Bom, o quê? Enquanto durou não esteve tão bom assim. Seriam os momentos de intimidade? Só se for. Mas sexo não é um casamento inteiro. Nós mulheres gostamos e precisamos ser elogiadas, valorizadas, olhadas, tocadas, incentivadas, estimuladas e amadas.

Prestem atenção na falta de companheirismo de Scott, nos questionamentos. Se estava satisfeita? Se compensava trabalhar tanto? Como uma professora tinha que trabalhar em outro turno para "pagar" pelo seu trabalho de professora (para comprar livros para os alunos)?

Erin Gruwell teve muita paciência. Trabalhava, chegava em casa e ainda cozinhava algo especial. O marido conversava com ela, mas não tinha interesse, não valorizava o que ela dizia. 

Era o terceiro ou quarto turno dela. Trabalhava na escola, na loja de lingerie, no final de semana no hotel, cozinhava, lavava, passava, arrumava a casa e ainda planejava aulas contagiantes.

Que dia o marido ajudou Gruwell nos afazeres domésticos? Que dia pagou uma faxineira, para achar que tinha o direito de falar e reclamar daquele jeito?

Quando o marido chegou com algo especial para Gruwell, a não ser as críticas? Quando apoiou sua profissão? Por que não entendeu que os diversos empregos de Gruwell eram temporários? Esses outros empregos seriam temporários até ela conseguir verba e patrocínio para outros projetos, como aconteceu mais tarde.

Ele não queria atuar como arquiteto. Ela tentava motivá-lo, mas respeitava sua decisão de não atuar como arquiteto. Não ficou jogando na cara, respeitou a sua escolha e ele não respeitou a dela. Sentiu-se como "colocado de lado". E não foi bem isso. Erin estava começando no emprego, iniciando uma nova carreira. Por que o marido não a motivava, por que só vinha com críticas "educadas"?

A resposta é que o marido não participava de um projeto de vida com Gruwell. Ele queria aquela esposa ali, submissa, disponível pra cama e pra casa. Ele queria a sua posse. Que ela pensasse como ele e acatasse o que ele dizia. Em nenhum momento o marido levou em conta a satisfação pessoal de Gruwell, que o dia-a-dia com os alunos na escola a fazia feliz, a realizava.

Disse no momento da separação que o que ela fazia era lindo, muito nobre, mas que não dava mais. Não dava mais pra ele ver o sucesso profissional da mulher. Sempre tendo elogios e retribuições dos alunos. Não dava pra ele ver mais as matérias nos jornais, destacando as práticas inovadoras de Gruwell. Não dava mais porque ele se mantinha acomodado numa carreira, enquanto a esposa enfrentava os desafios de frente e superava  todos. 

Não, não dava mais pra conviver com uma mulher dessa, que falava de seus alunos como amigos. Que contava com tanta alegria os avanços que os alunos obtinham. Ele queria de volta a "mulherzinha" dele, que tivesse olhos voltados somente para ele. Que fizesse somente o que ele quisesse, falasse somente de coisas que ele tinha interesse. Que fosse dessas bem fúteis, que a gente é obrigada a conviver. Que só falasse de casa, de comida, do próprio marido, de roupas e programas de auditório e séries de TV.

Gruwell pensava e como ser pensante, encontrou numa profissão de grande valor pra sociedade (embora a grande maioria só se dá conta disso, depois de adulto), o entusiasmo, a motivação, a retribuição nos olhares e vozes de cada um daqueles alunos. E isso era muito gratificante para ela. E por que não podia ser?

Ela cresceu. Tinha um projeto de vida, de profissão, um carreira. O que ele queria? Alguém que simplesmente o acompanhasse.

Chega em casa, arruma as malas e diz:
__ Querida, é muito nobre o que você faz, mas estou fora. 

Nos últimos meses, pesquisadores descobriram o que dificulta a carreira das mulheres. E não são os filhos, são eles, os maridos.

Quando os filhos chegam e as tarefas domésticas aumentam, a maioria dos homens não querem compartilhar e dividir as tarefas igualmente. Muitas têm que optar pelo sucesso da carreira do marido em detrimento da sua (mudar de cidade porque o marido foi transferido e/ou resolve se transferir). Não conseguem conciliar tarefas domésticas (que não são divididas) com cursos e práticas de aperfeiçoamento (cursos e a boa leitura de atualização de todo dia) etc. Ficam sobrecarregadas, estagnam na carreira, outras optam por ficar em casa somente para cuidar dos filhos e dos afazeres domésticos. Existem aquelas que os maridos não deixam trabalhar fora, etc.

Existe uma série de situações onde a mulher tem que colocar sua carreira de lado, se sobrecarregar de tarefas com os cuidados dos filhos e da casa, enquanto o homem chega do emprego, descansa, vê televisão, vai pro bar, etc. No final de semana somente descansa, enquanto a mulher é a mãe, faxineira, cozinheira, lavadeira e à noite tem que ser a "esposa"... 

E ainda tem que manter o humor, dizer e pensar que isso tudo é a obrigação da mulher. Segundo nossa tradição patriarcal a função da mulher é cuidar da casa e dos filhos. A função tradicional dos homens é ser o provedor, o protetor do lar.

Mas os tempos mudaram, a economia mudou, as necessidades de uma casa e dos filhos mudaram. Hoje é muito difícil que um homem consiga manter, economicamente falando, uma casa, a mulher e os filhos com suas reais necessidades alimentares, de moradia, vestuários, educacionais, de saúde e lazer. Só se for rico, porque até a classe média alta, necessita da complementação de renda do trabalho da mulher.

Pois bem, os homens pobres, de classe média e média alta adoraram a ajuda da mulher no orçamento familiar. As mulheres aceitaram dividir as despesas com os homens e estes, em sua grande maioria, ainda não aceitaram a divisão das tarefas domésticas e de cuidados com os filhos. E as mulheres, na sua grande maioria, ficam sobrecarregadas de tarefas, que geram noites mal dormidas, insônia, stress, depressão e vários outros problemas de saúde, que vão chegando lentamente ou não. É o machismo de nossa sociedade que sufoca a mulher e promete a ela esse ideal de "felicidade".

Uma coisa tem que se elogiar no marido de Gruwell, ele pegou seu egoísmo, seu machismo e se retirou de cena. Não insistiu em desconstruí-la (a maioria faz isso), não a explorou economicamente e  não a traiu, Ele simplesmente saiu da sua vida.


Sandra Cristina Gomes - professora de História e Geografia, graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Juiz de Fora.
Email: sandracgh.gomes@gmail.com

sexta-feira, 6 de março de 2015

Escritores da Liberdade

ESCRITORES DA LIBERDADE - 2007


Direção: Richard La Gravenese





     Muitos cursos e professores têm feito várias análises deste filme, voltados para a didática. As observações voltam-se para os acontecimentos, numa realidade onde vemos o esforço de uma professora em ensinar e dos alunos em aprender.
      É muito mais que uma história real em Los Angeles, Califórnia, em 1992. E para compreender a dimensão do seu alcance, precisamos da sociologia, especialmente a da educação, de Pierre Bourdieu.
      Quando vemos a Senhora G tendo o primeiro dia de aula, o primeiro olhar é o de observação, tudo é novo para ela. É nesta observação que se sustentou todo sua prática e  todo o seu envolvimento. 
     Senhora G não se contentou em ser mais uma professora, ela se tornou a professora daquela classe. Primeiramente procurou conhecer seus alunos, os observou, quis saber suas histórias, trajetórias, porque estavam ali e como tinham chegado ali. O que sabiam, o que não sabiam e o principal, porque não sabiam. Não se apegou às diferenças entre eles, mas às características que os aproximavam. 
     Embora se achassem diferentes, de gangues diferentes e rivais, eles tinham muito em comum: eram segregados pela sociedade tida como a mais democrática do mundo. Imigrantes, negros, filhos de imigrantes latinos e orientais e apenas um aluno branco nesta classe Ben (Hunter Parrish). Todos com dificuldades em escrita, leitura, atenção e concentração. Era uma sala homogênea.
      No primeiro momento, o senso comum entende que os alunos brigam tanto entre si porque não querem estudar, porque vão à escola somente por ser exigência da lei, por quererem um diploma¸  serem irresponsáveis, preferirem o mundo das ruas, do crime, a vida, a curtição do mundo jovem e sem preocupação.
      No contexto social em que se encontram, nos bairros onde moram, as gangues – são seus  grupos sociais. É o que acreditam que têm em comum entre seus membros.
      Quando Erin Gruwell (Hilary Swank) arruma o emprego de professora no Instituto Wilson, seus olhos brilham de entusiasmo pelo novo emprego, pela nova profissão,  mas o cenário que Erin tem no seu primeiro dia de trabalho é desanimador. 
      Em sua apresentação à supervisora Margareth Campbell (Imelda Staunton) teve a repreensão desta quando lhe disse para revisar os planos de aulas, que Homero seria muito para eles, que não dariam conta. E ainda lamentou que a escola era uma das melhores da região, mas com o programa Integração Voluntária, a escola perdeu 75% dos seus melhores alunos. 
      Quando o governo mandou para esta escola jovens negros, latinos, imigrantes orientais, recém saídos de reformatórios e\ou prisão condicional, ou seja, a escória da sociedade norte-americana, 75% dos alunos que tinham melhor rendimento escolar saíram daquela instituição.
     Na sala de professores Erin Gruwell ainda tem o preconceito dos professores veteranos por causa de sua empolgação inicial (sim, isso acontece em escolas públicas). Brian Beskin (John Benjamim Hickey) em tom esnobe, disse com toda a "normalidade", que achava melhor e normal os alunos evadirem até o final do ano escolar.
      Ao ver pela primeira vez o pátio da escola observa que, embora sob uma aparente integração, no seu íntimo a escola é dividida por grupos (negros, latinos, orientais etc). Estes discriminam e rivalizam entre si.
      Ao adentrar os corredores da escola avistou a sala do 3º ano do Professor Brian Beskin: sala limpa, armários e cadeiras novas, tudo impecável. Ao chegar à sua sala a 203 do 1º ano, a vista da desolação: paredes sujas, armários e persianas quebradas e quadro muito sujo de giz.
       Em seu primeiro momento na sala de aula, Erin Gruwell enfrenta a hostilidade dos alunos. Eles não a vêm como a nova professora, eles a veem como "a branca" , da elite, de um grupo social diferente e opressor dos seus.
       Eva (April L. Hernandez) abre a parte dos fundos da escola para a sua gangue de latinos, inicia-se a briga no pátio, a rivalidade de latinos com negros. Depois do estopim, todos brigam entre si.
       A visão desta violência deixa Erin Gruwell muito sensibilizada. E numa conversa com o pai Steve Gruwell (Scott Glenn), ele que a inspirou tanto em defesa e compreensão das minorias, se mostra com medo que a filha trabalhe numa escola de periferia e chega a chamar os alunos de criminosos. O pai foi um advogado muito respeitado na época da luta pelos direitos civis, décadas de 60 e 70, nos EUA.
      Mas todo esse medo não desanimou, nem acovardou Erin. Ela retorna à sala de aula disposta a se aproximar do universo cultural dos alunos.
      Ao chegar á classe e colocar uma música do rapper Tupak Chapuk, os alunos sabiam a letra de cor e cantaram-na. Houve resistência de alguns alunos por ela ter trazido uma música do universo deles. Não estavam entendendo nada, aquilo era novidade e ao mesmo tempo um desafio.
      Jamal (Deance Wyatt) gosta de provocar os colegas. Mas Erin não se intimida, troca os alunos de lugares, promove a integração invertendo os papéis.
      Os adolescentes que tem suas vaidades, seus jeitos de se vestirem, vida social. Saem a noite, sempre em grupos.
      E foi no mercado Crown Market que se dá o acontecimento que entrelaça a trama. Reunidos naquele mercado estavam orientais, latinos e negros. O jovem negro Grant Rice (Armand Jones) jogava na máquina caça-niquel. Uma cilada estava armada.
      O jovem latino Paco (Will Morales), aponta a arma para Grant Rice, porém ele sai durante o disparo que acerta o oriental atrás do vidro da loja. Eva vê tudo e sai tranquilamente no carro. Grant Rice foge e os orientais choram a morte do amigo.
      Eva protege Paco na policia e acusa o Grant Rice. O código de conduta é o código das gangues, o seu pertencimento. Para jovens como Eva, até aquele momento, o importante e correto era proteger os seus, os da sua etnia: os latinos.
      A direção da escola emitiu a nota dizendo que não iria se pronunciar sobre o caso e que este cabia à Polícia.
     Durante outra aula, nota-se risos de alunos com um desenho que ia passando de mão em mão. O desenho era a caricatura de Jamal com enormes lábios.
      Ao  perceber a movimentação, os risos, a professora pede para ver o desenho e quando o vê, pede para que os alunos fechem os livros.
      Erin fica chocada com a atitude preconceituosa e racista da classe. E compara a caricatura que fizeram de Jamal com as caricaturas que os alemães fizeram dos judeus. Faz a analogia, a ponte entre as duas ações, que mesmo em épocas e circunstâncias diferentes, têm o mesmo objetivo que é de diminuir o outro, de inferiorizá-lo, dominá-lo e explorá-lo.
      Jamal fica sensibilizado. A sala fica chocada.
      Neste momento explode o que é realmente a relação dos alunos de periferia do Instituto Wilson com a professora Erin Gruwell. Tudo, tudo o que está engasgado pelos alunos solta-se na forma de desabado, insatisfação e incompreensão. 
      Marcus diz que a professora não sabe de nada. Ela disse que se ela não soubesse que ele explicasse pra ela. Ela compara que começa com um desenho e termina com um garoto inocente recebendo um tiro a noite.
      Os ânimos se acirram, como se Gruwell tocasse a ferida. Eva se exalta:
      ___você nãõ sabe de nada! Não sabe a dor que a gente sente. Você vem aqui ensinar esta droga de gramática e depois a gente tem que retornar pra rua. Que ela não entendia nada disso.
      E faz a pergunta chave:
      __ O que você professora faz aqui dentro que muda alguma coisa na minha vida?
      E aí vem a resposta clássica de nós professores quando confrontados numa situação de indisciplina. G. diz a Eva que ela não se sentia respeitada, mas que para ter respeito era preciso respeitar.
      André pergunta porque deveria respeitar uma professora, ele não a conhecia, não sabia se era honesta. E afirma que não iria respeitá-la somente porque era professora.
      A fala de André reflete o que acontece nas salas de aula e acreditem! De grande parte dos países. Não, o professor não perdeu o respeito. Ele deixou de se conectar com ele. Pelo simples fato de que para ser professor hoje não basta um diploma, um jaleco, saliva e giz. É muito mais que isso. Como alunos vão respeitar uma pessoa que posa de superior "eu sou a detentora do conhecimento".
      Professores que dizem:
      __ O que vocês conhecem está errado. Têm que aprender a falar "certo" e escrever corretamente.       É o eruditismo na educação, de se achar que é um indivíduo superior na sociedade pelo seu conhecimento. Acontece que conhecimento tem que ser estimulado, enriquecido, valorizado e identificado. É isso o que Erin Gruwell faz em diante. Ela procura conhecer seus alunos, suas histórias, sonhos, perspectivas, desafios, defasagens e necessidades escolares. A partir daí seu método de trabalho, em sala de aula, mescla:


  •   Conhecer a história dos alunos, o seu cotidiano e vida familiar;
  •   Desenvolver dinâmicas para que se autoconheçam e identifiquem diferenças e principalmente semelhanças entre eles;
  • Valorização da cultura popular que os alunos trazem do seu meio social e associá-la à norma culta dos estudos;
  • Promover a efetiva aprendizagem dos alunos através do letramento e não somente no conteudismo de certas disciplinas.
     O que Gruwell fez em 1992, é aplicar na prática a Pedagogia Diferenciada, que Philippe Perrenoud só publicou em 1997.

      Existem diálogos neste filme que vão muito além dos conflitos da juventude, da rebeldia e da periferia. Como no trecho em que Eva resmunga que os brancos exigem respeito como se merecessem ele de graça,
     Diz que odeia brancos, que sabia o que brancos poderiam fazer. Ela se refere as prisões arbitrárias, como a de seu pai, na qual presenciou.
      Esta parte expressa bem o racismo e preconceito existente nos EUA. Negros, latinos e outros imigrantes são discriminados pela sociedade norte-americana, sociedade composta na maioria de brancos, ou seja a maioria, descendentes de ingleses que colonizaram os EUA.
      Este trecho apresenta diálogos intensos, cheios de significados sociais e portanto, é muito bom detalhá-los. 
     Quando Marcus (Jason Finn) tentando finalizar o clima tenso diz para que Gruwell parasse de entender a situação deles e que fizesse o seu trabalho de babá lá na frente, é que se vê o equívoco do papel dos professores. Quantos professores estes jovens tiveram e que, na verdade, cumpriam essa função de babá? Quantos cumpriram  somente seu horário numa sala de aula, aplicando gramática ou exercícios de álgebra e que se aprendessem bem e se não aprendessem tudo bem, porque "foram os alunos que não quiseram aprender, não queriam estudar"?
      Marcus só disse para Gruwell fazer este papel de professora babá porque era somente esse perfil de professor que conhecera.
      Outra fala de Marcus muito, muito profunda. 
      __Quando eu olho pro mundo eu não vejo ninguém que se pareça comigo com dinheiro no bolso, só se cantar rap ou for jogador de basquete.
      Essa fala é muito geográfica, histórica e sociológica.
      Marcus é negro e sua família descende de africanos que foram trazidos para trabalhar como escravos nas fazendas do Sul dos EUA. Mesmo com a industrialização, com o alcance de ser uma grande potência mundial em todos os setores, o preconceito e o racismo é muito forte na sociedade americana, onde os brancos, no seu cotidiano, agem como superiores.
     Fazendo parte de um grupo da minoria descriminada, aos descendentes dos antigo escravos libertos, estes continuaram a sofrer discriminação de suas descendências. Em sua maioria, têm de contentar com o modelo de escola pública norte-americana de periferia, onde professores são "babás" e a escola uma obrigação de frequentar pela justiça.
      A fala de Marcus encontra semelhança no contexto social brasileiro, substitua a palavra rap por pagode ou samba e basquete por futebol, Garotos e garotos de periferia pobres com o grande sonho de se tornar jogador de futebol ou cantor de música sertaneja ou funk. Por que isso? Consequências sociais da escravidão.
      Mesmo após a libertação dos escravos tantos os negros dos EUA quanto do Brasil não tiveram acesso à educação, a baixa escolarização é muito grande entre a população negra pobre. Mas nos EUA atualmente vemos pela TV apresentadores, jogadores de basquete e atores negros. Grande parte dos astros da música norte-americana são negros. Mas e a maioria de sua população? Aqueles que não vemos na TV ou na internet? Estes, somente temos acesso à sua real situação através dos livros de geografia, de sites e canais educativos.
    Quando o presidente Kennedy instituiu a Lei de Cotas nas Universidades norte-americanas, naquele momento era para corrigir a grande dívida histórica que aquele país tinha para com a sua população negra. O preconceito  e a discriminação racial eram muito fortes.
        Com a Lei de Cotas e os direitos civis, melhorou a acessibilidade do negro nos EUA. Mas uma sociedade que foi erguida com a escravidão, suas consequências perduram por séculos. 
       Mesmo com a democracia, com a igualdade perante a lei, com o acesso de quem estuda chegar a uma universidade, das imagens de negros na TV, na música, no esporte, porquê para a maioria da sua população negra habitantes dos subúrbios é exatamente o contrário? 
       E a família de Marcus, como de muitas outras, se encontrava nessa situação.
       Continuando a cena Gruwell pergunta para eles como irão se formar? E eles rebatem a realidade:
que não sabem nem se vão chegar aos dezoito, que estão numa guerra, que eles morrem uns pelos outros. Que é assim, quando você morre pela sua gente, morre com respeito.
      Gruwell pergunta a eles se acham que quando morrerem terão respeito. E responde:
      __ Quando morrer ninguém se lembrará de você porque tudo o que terá deixado para este mundo será este desenho.
       Um silêncio recobre a sala até que um aluno levanta  a mão e pergunta o que é o Holocausto.
     Surpresa, Gruwell pergunta à turma quem já tinha ouvido falar sobre o Holocausto. Ninguém levantou a mão. A partir daí Gruwell começa a "conhecer" seus alunos. E pergunta sobre a realidade deles. Quem assistiu o filme dirá que foi uma aula de impacto.
     Disposta a ser realmente a professora da turma e não somente uma "babá", Gruwell sabe que precisa associar à sua prática docente e ao cotidiano dos alunos a leitura, a informação, a ética e o saber.
       Ela vê a semelhança que houve nas práticas do Holocausto e na realidade violenta em que vivem. Decidiu, portanto, que a leitura de O Diário de Anne Frank e Romeu e Julieta seria ideal.
      Ao chegar à biblioteca, viu os livros parados lá. Pediu para Margareth (Imelda Staunton) que não deixou que fossem emprestados aos alunos alegando que não dariam conta de ler e que estragariam os livros. Ela deixou que se  levasse para a sala de aula somente as adaptações. E ainda despeja por cima de Gruwell a seguinte frase:
      __ Você não pode fazer alguém querer uma educação. O máximo que pode é fazê-los aprender a obedecer regras, ter uma disciplina. Se conseguir isso já é o suficiente.
      Como assim? Pobre não tem o direito de ler? A escola para uma comunidade que não tem familiaridade com leitura então é somente um lugar de ensinar boas maneiras, etiquetas, comportamentos sociais que se traduzem por ficar calado, copiar no caderno. Mas e a aprendizagem onde fica? 
      Primeiramente é uma escola pública e se é pública pertence a todos. Como um funcionário público se acha no direito de não fornecer material de biblioteca se este material foi comprado para este fim, ou seja para uso do aluno? A resposta se chama eruditismo.Ter um saber, se achar superior e através deste saber desqualificar outras pessoas, outras culturas. 
       Margareth não entende que o tempo mudou, a sociedade mudou e até a mente humana mudou. Com o advento da TV, de sua programação e comerciais, a concentração do jovem não é a mesma que na década de 50 por exemplo.
        Margareth diz no início do filme que a escola era muito boa e que perderam 75% de seus melhores alunos depois que o governo incluiu os jovens de outras classes sociais na escola. A partir do momento que o governo incluiu-os na escola, a direção, o professorado não modificou a sua prática na sala de aula para incluí-los. Continuaram a tratá-los como marginais, continuaram a excluí-los do processo de aprendizagem. Mas como os excluíam se eles iam às aulas todos os dias?
        A exclusão era feita pelo saber. Excluía-se pela prática pedagógica tradicional que contemplava somente os saberes de alunos mais abastados. A escola continuava a cobrar e avaliar as competências que eram comuns e naturais para classes média e rica. Competências como: familiaridade com a leitura, concentração para assistir filmes, tarefas de casa extensas, aulas tradicionais com longas explanações etc. Isso é muito natural para pessoas que cresceram em famílias que já são alfabetizadas há várias gerações, que a leitura é uma rotina cotidiana com jornais, revistas e livros,  que vão ao cinema regularmente, vêm espetáculos teatrais, musicais e circenses etc. É o que o sociólogo Pierre Bourdieu denomina de Capital Cultural. A escola continuava a cobrar e valorizar Capital Cultural de quem não tinha.
       A ação pedagógica muito tradicional desta escola é o que Paulo Freire definiu como Pedagogia da Opressão. É a concepção bancária da educação como instrumento de opressão.
       A educação que deveria ser libertária, oprimia porque excluía a maioria (pobres). Ao negar o saber à maioria da população, a dominação, a subjugação e a exploração é mantida. 
      Quando Margareth se recusa a emprestar os livros da biblioteca para os alunos de Gruwell, ela está errada em vários sentidos:
        1- Ela nega material comprado com dinheiro público para alunos de escolas públicas;
       2- Ela discrimina alunos porque os da primeira sala, comportadinhos, quietinhos têm direito de ler livros na íntegra. Os alunos das últimas salas não, ironicamente os que mais precisam de desenvolver a leitura;
         3- A discriminação de Margareth é tanta que sugere que os alunos lêm adaptações dos livros, ou seja, ela julga eles como incapazes de lerem obras de William Shakespeare e Anne Frank. Na verdade ela age é com preconceito mesmo;
       4- O preconceito cultural de Margareth aos alunos da sala 203 é uma forma de racismo porque é uma classe formada por negros, latinos e imigrantes orientais. Ela desqualificá-os assim como a sociedade americana faz com os não brancos;
     5- Ela comete assédio moral a partir do momento que julga Gruwell incompetente, que seu trabalho não terá êxito, dificulta e menospreza todas as iniciativas inovadoras do trabalho de Gruwell;
      6- E o grande problema de Margareth: ela se acha um copo cheio, detentora de todo saber e experiência. Seu orgulho a impede de aprender com novos colegas de trabalho, com novos alunos e com novas realidades.
     Ao pedir apoio ao professor Brian, ele age com sarcasmo. Com ironia de um erudito porque no seu dizer eram todos marginais perigosos. Eles se considera superior poque leciona para as salas avançadas. 
     No alto do seu preconceito.  Ele pergunta a Gruwell se faz sentido que pessoas que querem estudar não conseguirem estudar porque a Integração mandou eles para cá. 
     E afirma que são os alunos que não querem estudar, que não querem estar ali e são obrigados a vir para aqui, porque os homens sérios que pensam na educação, pensam dessa forma. Sustenta que a  Integração é uma farsa, que ela não sabe nada sobre estes garotos, que não estava qualificada a julgar os professores que tinham que sobreviver naquele lugar.
     Gruwell consternada vai para o pátio e observa a todos. Não, ela não via aquela escola, aqueles alunos como Brian e Margareth. Seu olhar tinha profundidade social e pedagógico.
     Retorna a sala de aula e começa a usar  dinâmicas para conhecer a realidade dos jovens. Suas preferências musicais, seus estilos, realidade social e principalmente suas situações de risco social.
        As dinâmicas mostraram que na verdade eles, apesar de grupos étnicos diferentes, suas situações sociais eram muito parecidos.
     A partir dos encontros na linha do meio da sala puderam perceber que as consequências da violência e da discriminação. Todos eles enfrentavam principalmente, a morte de parentes e amigos por causa das drogas.
       Estas dinâmicas são na verdade, o começo daquilo que Paulo Freire chamou de  ação dialógica. A comunicação conduz ao diálogo que é um canal aberto de libertação da opressão.
        Para incentivá-los a escrever, desenvolver a escrita e também conhecê-los ela comprou diários e os entregou aos alunos. Disse que se quisessem que ela lesse, ela deixaria o armário aberto para que colocassem lá e no final da aula, fecharia o armário.
      Reunião de pais, ninguém compareceu. G. abriu os armários e para sua surpresa os diários estavam lá. Eles haviam permitido que ela os lessem. Cada história de vida de um aluno era mais sofrida que a outra...
         Conversando com o pai se sentia impotente diante de tantos problemas e dificuldades. O pai a aconselhou a cumprir o compromisso até o final do ano. 
         Resolve trabalhar num loja vendendo sutiãs, para comprar livros para os alunos (que Margareth se recusou).
        A surpresa da classe ao receber livros novos para lerem no semestre. Nunca tinham sido tratados assim.
         Resolve conversar com  o Dr. Carl Cohn (Robert Wisdom), diretor do programa de Integração 
Escolar de New Beath, Pede permissão para passeios, precisava proporcionar-lhes o que nunca tiveram.
        Para conseguir isso resolveu que no final de semana seria  recepcionista num hotel.
    Gruwell desafia a burocracia, o preconceito e inova. Organiza um passeio no Museu do Holocausto. Ela com a ajuda do próprio pai, buscam os alunos em suas casas.
    Na visita ao Museu do Holocausto os alunos participaram ativamente sobre as histórias das  vítimas, os acontecimentos e os horrores dos atos nazistas. Ao saírem, algo de muito valor havia acontecido, o despertar da compreensão do valor da vida humana.
      Depois desta visita ao museu, ofereceu a eles um jantar no hotel que trabalhava. Eles conversaram com sobreviventes do holocausto. Alguns diziam que não acreditavam que a Senhora G (como a chamavam) havia feito aquilo tudo por eles.
      A compra dos diários e o ensino de leitura e escrita, a compra de livros para lerem no semestre, os passeios e o jantar em um restaurante tinham muito significado para aqueles jovens. Nunca haviam sido tratados daquela maneira. Não tinham condições socioeconômicas e os que viviam com suas famílias também não. 
      O que a Senhora G. fez foi proporcionar a estes alunos Capital Cultural através de aulas bem ministradas e planejadas, acesso a livros, museus, cinemas etc. Gruwell faz com que passem a ver o mundo de outra forma, a terem diversos tipos de aprendizagem através de diversas oportunidades de socialização. 
      A partir deste envolvimento e profissionalismo de Gruwell, os alunos corresponderam porque tinham uma professora que sabia de suas histórias, vidas, necessidades sociais e de aprendizagem.
        É interessante analisar a parte que uma aluna do 2º ano da turma avançada, que foi discriminada quanto à cultura e literatura de sua etnia, observando as aulas de sua colega, da sala 203, de Gruwell.
       No início do 2º ano, que corresponderia ao nosso 2º ano do Ensino Médio, Gruwell faz uma calorosa recepção aos alunos. Traz as bolsas com os quatro livros que eles teriam que ler naquele semestre e propõe-lhes um brinde, para que todas as vozes que dissessem que eles não eram capazes fossem silenciadas. O ápice deste acontecimento foi o depoimento de um aluno sem teto.
      O sucesso de docência de Gruwell chega até mesmo, ao ponto da aluna Vitória (Giovonnie Samuels), da turma avançada, pedir para ir para a turma de Gruwell. Ela se sentia discriminada por ser a única negra dentro de uma sala avançada e ainda tendo que vivenciar o preconceito com a cultura e literatura de sua etnia, além de práticas pedagógicas muito tradicionais.
      Os alunos tornaram-se leitores e a história de Anne Frank os envolve. A ponto até mesmo de Eva chegar revoltada porque Anne Frank morreu. Marcus a interrompe e diz que Anne Frank não morreu.  Que aquele livro arrebentava porque Anne Frank entendia a situação deles, ela era da idade deles.
      Quando Marcus diz que não só tinha lido o livro todo, gostado muito da história como também que tinha lido tudo sobre Miep Gies, a senhora que escondeu Anne Frank. Não podemos dimensionar o alcance da leitura como hábito de rotina na vida de um aluno. 
      Para avaliar a leitura, percepção e escrita dos alunos, Gruwell dá uma atividade na qual os alunos teriam que escrever uma carta para Miep Gies. Os alunos ficam muito entusiasmados querendo conhecê-la. Começa ali uma campanha para arrecadar fundos para trazer Miep Gies da Europa.
     O trabalho de Gruwell atravessa as fronteiras do Instituto Wilson e para desespero dos funcionários conservadores como Margareth, os jornais destacam seu desempenho tão inovador.
       Nas campanhas para arrecadar fundos para a vinda de Miep Gies, diversos eventos foram feitos como festas e festivais, Nestes eventos, já se mostram os efeitos sociais do trabalho de Gruwell, pois jovens de diversas etnias convivem normalmente.
      A chegada de Miep Gies (Pat Carroll) foi um acontecimento marcante na escola, Ela sentou com os alunos contou a história de Anne Frank e como prenderam-na. Os alunos ficaram sensibilizados e Miep Gies também.
      O alcance da prática pedagógica de Gruwell ultrapassou fronteiras e continentes. Um novo saber foi desenvolvido e aprimorado: o saber humano. 
     Além de ensinar língua e literatura inglesa, conhecer os alunos, trabalhar suas autoestimas e competências, Gruwell foi muito além, trabalhou pela aprendizagem de valores, ética e direitos humanos, bem como a sua prática.
      Nessa transformação e aquisição de novos valores, houve muita mudança na vida dos alunos. Marcus retorna, pede à mãe para voltar para casa, uma nova chance e adentra com ela novamente para a casa.
       No julgamento uma reviravolta: Eva diz a verdade, quem realmente atirou naquela noite no mercado.  Ao trabalhar a sensibilidade humana, os direitos humanos e a ética, constrói-se um novo ser humano. No depoimento Eva ficou com a verdade e a justiça. 
      Claro que os alunos passam por períodos difíceis em suas vidas, como André Bryant (Mario Barrett) que, vendo o irmão ser condenado por tráfico de droga, ficou desnorteado e quase abandonou os estudos, Mas Gruwell o reconduziu.
      Chegando próximo do final do ano letivo os alunos ficam espantados quando ficam sabendo que Gruwell lecionaria para eles no 3º ano. Querem continuar com ela, o porto seguro deles. 
      No Conselho Distrital, numa reunião com o supervisor e a diretora, Gruwell argumenta os motivos porque deseja permanecer com esta turma. Mas Margareth com muita grosseria desfaz do trabalho de Gruwel na frente de todos.
        Gruwell consegue a permissão para continuar a  lecionar para eles no 3º e 4º ano.
       Com um novo projeto ela consegue a doação de 35 computadores com um empresário. Os alunos digitam seus diários para o computador. Seus relatos viraram um livro que foi publicado: O Diário dos Escritores da Liberdade. um livro.
      Muitos dos alunos foram os primeiros de suas famílias a formarem no ensino médio e entrarem para um  curso superior.
     Esse é o verdadeiro alcance de uma educação de qualidade, onde alunos são sujeitos de sua aprendizagem, orientados por uma professora humana e profissional exemplar.
       A educação, o letramento e conhecimento que a Senhora G. proporcionou-lhes conhecimento e a tão sonhada graduação. 
       A profissionalização e especialização destes alunos, muitos chegaram à universidade, permitiram que melhorassem suas condições sociais e econômicas.
     A Senhora G. deixou Wilson para lecionar na Universidade Estadual da Califórnia em Long Beath.


       Obs: Não tratei aqui da vida pessoal de Erin Gruwell, seu marido, casamento e separação. Esse assunto merece futuramente uma postagem.


Sandra Cristina Gomes - Professora de História e Geografia, pós-graduada e graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Juiz de Fora.
Email: sandracgh.gomes@gmail.com